MonoFlavia - Cap. 3

Capítulo III

O “American way of life”, com um “jeitinho brasileiro”

É interessante iniciar este capítulo contextualizando espacialmente a comunidade estudada. Vamos caracterizar a cidade de Governador Valadares, e a influência dos migrantes para esta, que está localizada no leste do estado de Minas Gerais (ver mapa abaixo) e por muitos é conhecida como “Valadólares”, denominação dada à cidade ao longo da década de 80 – devido à remessa de dólares dos emigrantes que impulsionaram a economia local. (Assis, 2000) Esse fluxo financeiro é responsável pela movimentação e crescimento econômico da cidade. Um exemplo desse desenvolvimento é o crescimento do setor imobiliário.

(...) com base na contagem seletiva, por objeto imobiliário, das guias de ITBI (Imposto de transmissão de bens Imóveis), é possível afirmar que os imigrantes foram responsáveis por 46,7% de todas as transações imobiliárias ocorridas entre os anos de 1984 e 1993 inclusiva. (...) aliados às informações que revelam o volume dos imóveis adquiridos com moeda estrangeira após a emigração, é possível identificar a nova posição ocupada pelo emigrante no campo social de origem: eles passam à condição de investidores. (Soares, 1995)

A opção do migrante valadarense pela compra de imóveis representa o vínculo social que ele mantém com sua terra natal. Mesmo em outro país, o migrante investe no local onde sua família reside e assim os proporciona uma melhoria na qualidade financeira e concomitantemente reforça seus vínculos com sua comunidade de origem.
Podemos dizer que o migrante valadarense cria um campo transnacional, que permite que ele viva e trabalhe nos EUA, e ao mesmo tempo, invista em Governador Valadares, por além de proporcionar mais bem-estar a seus familiares, esse ato significa uma motivação para seu retorno futuro. Pois a idéia inicial do migrante de “fazer a América”, sempre esteve vinculada ao retorno deste a Governador Valadares. “Segundo os depoimentos dos emigrantes, alguns há mais de 30 anos nos EUA, a perspectiva do retorno se mantém presente. É por isso que investem em sua terra natal e mantêm o contato com os familiares”. (Assis,1995)
O retorno ao Brasil faz parte dos planos da grande maioria dos indivíduos ao tomar a decisão de emigrar. Muitas das famílias de imigrantes da comunidade de Boston fazem planos quanto a perspectiva de retorno ao Brasil, e esses planos, “sonhos”, são uma motivação e até mesmo um apoio para que eles continuem trabalhando duro nos EUA e, assim antecipem a possibilidade de volta a terra natal. E a ajuda da comunidade, das manifestações de brasilidade e de toda a estrutura criada para recriação e transporte de um “pequeno Brasil” até o imigrante, traz conforto, solidariedade e satisfação quanto à saudade desse país. “(...) as festividades de Natal são as que mais despertam saudades do Brasil. Quando se aproxima o final do ano, os imigrantes sentem-se deprimidos, desanimados, pois mais um ano se passou e o retorno, mais uma vez, não foi além do desejo (...) Entretanto, o retorno à terra natal está condicionado à realização dos projetos de comprar um carro, uma casa e montar um negócio, bens que significam o sucesso do projeto de migrar”. (Assis,1995)
Nos EUA, a comunidade brasileira, se comparada a outras comunidades imigrantes como a italiana, cubana, mexicana ou chinesa, é pequena em termos de porcentagem populacional[1]. Mas em Boston, cidade do estado de Massachusetts, norte dos EUA (ver mapa abaixo), ela é extremamente ativa e significativa, por encontrar sua força em pontos de concentração dos brasileiros, e é em sua maioria composta por pessoas que vieram da região de Governador Valadares. A área da Grande Boston é formada por dez cidades municípios e compreendida entre Boston e a Rodovia 128. “As três maiores concentrações de brasileiros vivem nas cidades de Somerville, Framingham, Allston-Brighton e East Boston (bairros de Boston) e Marlboro. Mas há brasileiros espalhados por todos os lados, desde Nashua, em New Hampshire, até Dorchester, Roxbury e Roslidale, outros bairros de Boston”. (Souza, 1999)
Existe uma dificuldade em quantificar os brasileiros da comunidade “porque os brasileiros geralmente não são identificados como um grupo específico na classificação racial americana[2]” (ver anexo 3). Mas as pessoas que trabalham com a comunidade sentem que, cada vez mais, o fluxo de entrada de brasileiros nesta área dos EUA, aumenta.

Um exemplo é a matrícula escolar que aumenta em todos os distritos, principalmente por causa de filhos de famílias que acabaram de chegar ou de pais que já moram aqui e agora conseguiram trazer os filhos (...) Robson Goulart, que matricula crianças brasileiras para a escola em Somerville, atende uma média de oito famílias por dia. Os hospitais de Cambridge e Somerville atendem mais de 2500 brasileiros mensalmente com os mais diversos problemas, de vacinas a testes de HIV ou problemas emocionais. A escola pública de Framingham matricula mais de 400 brasileiros de Jardim ao segundo grau. O comércio brasileiro é formado por cerca de 150 lojas, emprega aproximadamente 500 pessoas e gera recursos anuais da ordem de 50 milhões de dólares. (Souza, 1999)

Em relação aos valadarenses existe uma explicação para a maior proporção destes na comunidade de Boston. “Conta-se que os mineiros de Governador Valadares vinham comercializar pedras preciosas, uns gostaram e ficaram. Como brasileiro não vive sozinho, aos poucos os mineiros começaram a trazer mulher, filhos, vizinhos, pais, namoradas e amigos. A história verdadeira está relacionada com a construção da estrada de ferro ligando os estados de Vitória(sic!) e Minas Gerais, quando os mineiros de Governador Valadares começaram a ouvir falar de Estados Unidos. Quando eu cheguei aqui, há onze anos, nove entre cada dez brasileiros imigrantes eram de Governador Valadares”. (Souza, 1999)
A comunidade valadarense em Boston assume diversos setores para proporcionar um melhor bem-estar a todos conterrâneos que lá se encontram. Existem grupos com propósitos diversos como comércio, religião e, sobretudo, a área social, e englobam educação, saúde, trabalho, apoio emocional e até os direitos do migrante no exterior, e também contam com o apoio do Consulado Geral do Brasil em Boston.
Esses grupos foram criados com o objetivo primeiro de inserir o imigrante na “vida americana/ american way of life” da melhor maneira possível. O comportamento dos brasileiros como grupo, aos poucos, solidifica sua identidade cultural na comunidade de destino. “O Departamento de Saúde americano, por exemplo, promove treinamentos freqüentes para intérpretes e os de língua portuguesa – leia-se brasileiros – são dos mais requisitados. Os hospitais da área de Boston empregam mais de 40 brasileiros, os sistemas de educação querem contratar professores para seus programas bilíngües em português”. (Souza, 1999)
Esta demanda representa uma abertura no mercado de trabalho para os brasileiros pois, além de falar português, é preciso conhecer a cultura, a maneira de ser do brasileiro, identificar-se lingüística e culturalmente com os clientes, consumidores (brasileiros que buscam serviços) para que exista uma relação consistente. “A mudança política de atendimento de grupos e instituições a fim de se adequarem às necessidades dos brasileiros, demonstra que a comunidade está conseguindo ‘impor’ sua identidade”. (Souza, 1999)
Assim os grupos da comunidade oferecem serviços que vão desde trazer ao valadarense, morador de Boston e redondezas, jornais e alimentos brasileiros, até ajudá-lo na abertura de um negócio.
O crescimento da comunidade brasileira aumentou os problemas e as necessidades, provocando o aparecimento de diversas organizações e grupos comunitários que trabalham com a comunidade (...) À medida que a comunidade cresce, aumenta a demanda para prestação de serviços na língua nativa do grupo, quer dizer o português: vacinas, matrícula estudantil, transações bancárias, aluguel, compra de casa própria, colocação no mercado de trabalho, apelos judiciais, para só citar alguns. Esta prestação de serviços provoca uma demanda de mão-de-obra brasileira especializada, como professores médicos, psicólogos, terapeutas, assistentes sociais e intérpretes, entre os mais procurados. (Souza, 1999)

Um ponto interessante a enfatizar diz respeito à comunidade comercial brasileira e a imagem deste imigrante como empreendedor, que cada vez mais compõe o quadro das empresas étnicas[3]. “(...) algumas análises contemporâneas têm demonstrado que os pequenos negócios, mais do que a grande corporação, é que vem proporcionando mais empregos nos Estados Unidos Hoje em dia, e que essas empresas (em grande parte pertencentes a grupos étnicos) têm liderado a saída da recessão econômica[4]. (...) a população brasileira, diria que são mais educados e pessoas entrepreneurs (empreendedores), abrem negócios, correm risco, trabalham duro”.(Sales, p.67-68, 1999).
Esse fato pode ser explicado pelo bom nível de escolaridade do brasileiro imigrante[5], que encontra em Boston maiores facilidades, financeiras e burocráticas, além de melhores condições em relação a demanda, para que ele abra um negócio e obtenha lucros.
Mais do que o espírito empreendedor do imigrante brasileiro, a bagagem de nível educacional levada do Brasil e as maiores facilidades de abrir um negócio nos Estados Unidos, o que me chamou a atenção ao observar essa afluência de negócios de brasileiros em Framingham foi um outro aspecto que esteve sempre presente nas entrelinhas de sua narrativa. Aquele imigrante vai aos poucos constatando que naquele país, onde ele é estrangeiro e muitas vezes indocumentado, ele tem mais oportunidade de afirmar e de progredir, mesmo sendo o homem comum que é, do que no Brasil, onde ele é cidadão e filho da terra. (Sales, p.72, 1999)

O imigrante que deseja explorar essa área compartilha dessas facilidade e do apoio de instituições da comunidade criada para auxiliá-lo, como o US Small Business Administration na abertura de um negocio e do próprio Consulado.
Dentre as áreas onde vão sendo construídas as bases para o fortalecimento da comunidade brasileira na Nova Inglaterra, a da expansão de negócios empresariais sobressai como de grande importância estratégica. Tanto mais amplo seja o conhecimento do pequeno empresário brasileiro sobre as possibilidades de criar ou expandir o seu negócio, maiores serão as perspectivas da comunidade como um todo. Bem orientado, o pequeno empresário brasileiro na região poderá fazer melhor uso de sua criatividade para progredir; e quanto mais próspero ele se torne mais empregos e renda acabará gerando dentro da própria comunidade. Por isso, com vistas a apoiar a organização e o desenvolvimento dos pequenos empresários brasileiros na principal economia da região (Massachusetts), o Consulado reuniu os dados e esclarecimentos que constam desta publicação. Ela deve ser vista como um conjunto de informações apenas preliminares, em nosso idioma, destinadas a estimular a criação ou expansão das oportunidades de negócios para os brasileiros que aqui vivem. Ao apresentar, portanto, a Cartilha do Pequeno Empresário Brasileiro em Massachusetts, minha expectativa é de que contribua para a maior expressão econômica da comunidade brasileira, e, por via de conseqüência, para a afirmação de sua identidade em relação à sociedade norte-americana. - Mauricio E. Cortes Costa - Cônsul-Geral em Boston. (Site do Consulado de Boston)

A Prefeitura da cidade de Boston também já disponibilizou serviços para atender à demanda da comunidade brasileira por assistência em vários setores. Existe um “Guia de Serviços” disponibilizado em língua portuguesa, criado por iniciativa do próprio prefeito.

BENVINDOS A BOSTON
Prezados Senhores e Senhoras: BENVINDOS A BOSTON!
Tenho o prazer de apresentar a todos os Bostonianos o primeiro Guia de Serviços da Cidade de Boston. Como novos Bostonianos, cada um de vocês tem uma história única para contar e cada um de vocês depara com diferentes obstáculos. Quero que nossa Cidade fique conhecida como um lugar que ajuda o residente a superar estes obstáculos. Através da história da nossa Cidade, novos residentes contribuem imensamente para o crescimento, sucesso e vitalidade da Cidade de Boston. Hoje, como no passado, nossa Cidade recebe uma riqueza inestimável trazidas pelos imigrantes. Eu quero garantir a participação total dos imigrantes no desenvolvimento da nossa Cidade. Este é um guia de serviços oferecidos pela prefeitura, que deve ser acessível e prático, o qual todos devem conhecer e utilizar. Por favor, contate estas agências, através dos telefones indicados, para mais informações dos serviços que são oferecidos. Se você está vivendo em Boston por 10 meses, 10 anos ou mais, eu espero que você pense em Boston como uma Cidade que lhe dá boas vindas de braços abertos e para a qual você, igualmente, dará o melhor de si.
Sinceramente,
Thomas M. Menino
Prefeito de Boston – (Site da Prefeitura de Boston)


O comércio brasileiro em Boston tem o objetivo de atender a comunidade brasileira, por isso é composto em sua grande maioria por pequenas lojas (como armazéns), que oferecem uma variedade de produtos brasileiros, joalherias, casas de cabeleireiros, restaurantes, padarias, oficinas mecânicas, lojas de roupas e agências de turismo e remessa de dinheiro.
(...) em Boston pude perceber a presença brasileira espalhada por varias localidades. Na área de Allston, onde realizei parte do trabalho de campo, estabelecimentos comerciais se concentravam em alguns quarteirões, em algumas lojas de produtos brasileiros, agências de remessa de dinheiro, pequenas lanchonetes. A maioria dos estabelecimentos exibia uma bandeira brasileira na porta e dentro destes podia-se encontrar, desde coxinha e pão-de-queijo, a jornais e revistas brasileiros. Da mesma forma, encontrei em outras localidades, Cambridge, Somerville, Framingham, estas mesmas lojinhas. O aspecto destas lojas contrasta com a modernidade das lojas americanas, pois se assemelham em estrutura aos armazéns brasileiros conhecidos como ‘secos e molhados’, onde se encontra de tudo um pouco. Ao entrar nelas atravessamos uma fronteira ao encontro de nossa brasilidade. (Assis,1995)

Essas lojinhas são como um “pedaço” do Brasil dentro dos EUA. Lá os brasileiros encontram feijão, farinha, guaraná, coxinha, pão-de-queijo, e podem se sentar, tomar um cafezinho, ler o “Estado de Minas” ou a “Revista Veja” e conversar com um conterrâneo sobre as últimas novidades da sua terra. Também podem fazer encomendas de quaisquer produtos brasileiros, alugar fitas de novelas e minisséries, comprar cartões telefônicos para chamadas pré-pagas ao Brasil. Nos EUA a cultura diferente implica desde hábitos alimentares distintos a hábitos cotidianos relacionais, não sendo possível assim que o brasileiro encontre produtos habituais de seu país em estabelecimentos típicos americanos.
Além das revistas e jornais, podem optar por receber os serviços da “Globo Internacional” em casa, por assinatura, tendo acesso às noticias diárias e à programação da rede de televisão brasileira. Ao mesmo tempo em que intercalam com canais norte-americanos, e assim se atualizam e se informam sobre o país em que estão vivendo. Isso também acontece em relação aos jornais e revistas, Internet, telefones e até rádios, que já possuem sua estação brasileira na grande Boston.

Fundado em 1988, o jornal Brazilian Voice surgiu com a proposta de servir como elo de ligação entre os brasileiros residentes nos Estados Unidos. Ao longo desta década, a nossa luta tem sido coroada pela lealdade do público leitor e a preferência de um vasto número de empresas americanas, que, de olho no crescente mercado brasileiro, estamparam seus produtos em nossas páginas: AT&T, American Airlines, Western Union, Blue Note, JVC Jazz Festival, United Airlines, Continental Airlines, Acreditando na diversidade e no potencial econômico das pequenas e médias empresas, o Brazilian Voice abre seu espaço também para os comerciantes brasileiros, que junto com empresas maiores como Varig, Transbrasil, Encol, fazem deste jornal um veículo seguro e confiável, que comprovadamente proporciona ao seu anunciante um retorno imediato. Dez anos depois de sua fundação, o jornal Brazilian Voice é uma empresa solidificada, caminhando rumo ao próximo milênio com os pés no chão e de olhos postos no futuro. O orgulho de ter se mantido fiel ao ideal de seus fundadores, transformando o Brazilian Voice na verdadeira “voz do Brasil” neste país. Circulando atualmente em seis estados da Costa Leste, o jornal chega agora à sua versão online, tornando-se acessível aos brasileiros de outros pontos do país e do planeta. (http://www.brazilianvoice.com/)

As agências de turismo também são bastante freqüentadas, não somente para emitir passagens para o migrante e seus familiares, mas por a maioria delas oferecer serviços como a “Loteria do Green Card” em que o imigrante se inscreve pagando uma certa taxa e participa de um sorteio de documentos promovido pelo Governo dos EUA, e também por fazer parcerias com as agencias de remessa de dólares ao Brasil, que atraem um grande número de clientes. (ver jornal anexo)
A boa organização do comércio brasileiro para os imigrantes em Boston permite que essa comunidade tenha, de uma forma mais facilitada, suas necessidades de consumo atendidas. E permite, ao mesmo tempo, um convívio social dos imigrantes, que têm nas casas de comércio um ponto de encontro e convívio.

... você vê que nós temos a nessa do café ali fora, a pessoa não vem aqui só comprar jóia, ela vem desabafar, vem conversar, olhar o jornalzinho. Eles vem sentir um bocado do cantinho do Brasil aqui pra ver se dilui um pouco da angústia, dessa vontade doida que no fundo ele tem de voltar. E os americanos não entendem isso, eles não entendem um cafezinho com três, quatro pessoas batendo papo. Umas vez, eu vou contar um caso curioso, teve uma pessoa que me chamou e falou que tinha um americano achando que isso aqui era ponto de droga, que era a única explicação que ele encontrava para ver tanta gente assim conversando em um estabelecimento cuja finalidade era comercial. Quer dizer, isso é uma amostra de como eles realmente não entendem como nossa sociedade convive lá dentro do Brasil. (Pedro, dezembro de 1995 - entrevista concedida a Teresa Sales, - 1999, p. 103).



A receptividade e o bom relacionamento entre os brasileiros são reconhecidos entre os americanos, tanto que alguns deles procuram vivenciar a brasilidade, freqüentando o comércio brasileiro, e principalmente as atrações sociais organizadas para esse público. “O posicionamento das organizações criadas por brasileiros está facilitando a formação de uma consciência comunitária organizada. Quando necessário estes grupos atuam como elemento de ligação entre as comunidades brasileira e americana (...)”.(Souza, 1999)
Geralmente restaurantes oferecem shows de música ambiente brasileira, bares americanos oferecem “noites brasileiras”, com bandas e dançarinos típicos, e até artistas famosos vêem do Brasil para entreter a comunidade lá presente.
(...) as noites brasileiras nas boates em Newark, onde se podem encontrar alguns petiscos bem brasileiros, como o churrasquinho, ouvir música brasileira, ou ainda assistir ao show de algum músico brasileiro, – ou em Boston, onde também ocorrem noites brasileiras em alguns bares e boates – são evidencias de uma comunidade que de forma espalhada e dispersa começa a se organizar. (Assis,1995)


Mas faz-se interessante ressaltar que embora não enfatizados nessa pesquisa, existem tensões e conflitos que envolvem a comunidade de imigrantes. Esses problemas são representados principalmente pela discriminação e exploração a que o brasileiro sofre em relação ao indivíduo estadunidense. A discriminação acontece de diversas formas, mas expressa-se com mais destaque em relação às condições de ilegalidade e da raça do imigrante brasileiro. O imigrante clandestino (ver apêndice) além de sofrer exploração em relação ao tipo de emprego que ele ocupa, devido a sua própria condição, não se integra à comunidade de destino com facilidade.(Sales, 1999; Margolis, 1993; Assis. 1995). A dificuldade de integração também se faz presente em relação à diferença lingüística e cultural, a que a comunidade brasileira, através da criação de grupos de apoio ao migrante, tenta suprir. “O trabalho gerado e provocado por estes grupos comunitários criados por brasileiros ajuda a diminuir os conflitos culturais e proporciona uma melhor assistência à comunidade”. (Souza, 1999)
Os grupos religiosos representam um forte pilar do convívio e encontro social dos brasileiros imigrantes. Mas, o mais significativo destas, é o conforto espiritual e emocional que o imigrante encontra ao freqüentar as missas e/ou cultos organizados por fiéis de sua mesma crença religiosa.
“As igrejas foram as primeiras e durante um certo tempo quase as únicas instituições que congregavam os brasileiros da Grande Boston, quando ali nem consulado brasileiro existia ainda. Nesses primeiros tempos as igrejas eram o espaço com o qual eles podiam contar para se juntarem e se sentirem brasileiros em terras estrangeiras. Dali nasceu uma forma rudimentar de organização, concretizada nas campanhas de solidariedade. (...) Através dessas campanhas, a igreja contribui para criar laços de solidariedade entre os membros da comunidade, laços esses que podem se estender para outros grupos imigrantes, a depender do âmbito da campanha”. (Sales, p.188, 1999)


A religião desempenha um importante papel no cultivo da identidade, uma vez que partilha idéias, obrigações e comportamentos comuns significativos, “criando” uma comunidade. Quando levamos em conta a importância do papel da religião e dos ritos e símbolos para a identidade de uma nação, podemos relacionar nacionalismo à capacidade de conter e produzir coesão dentro de qualquer comunidade, como um meio de obter cooperação e comunicação, pois ele possui a capacidade de reunir pessoas de níveis culturais e contextos sociais diferentes. Os símbolos mascaram a diferença e põem em relevo a comunidade, criando um sentido de grupo.(Guibernau, 1999) As pessoas constroem a comunidade de forma simbólica e transformam-na como um referencial de identidade.
Além do comércio pude também observar que já se organizam festas religiosas, tanto católicas quanto protestantes. Presenciei, em Cambridge, uma festa de Nossa senhora Aparecida, na qual a imagem da santa padroeira do Brasil foi carregada por uma criança vestida com a camisa da seleção brasileira. As igrejas protestantes, por sua vez, enviam pastores a Governador Valadares para dar conforto espiritual aos parentes que vivem a espera. (Assis,1995)


Em relação ao apoio social oferecido ao migrante, as comunidades oferecem uma diversidade de serviços, contribuindo imensamente para amenizar as dificuldades que os brasileiros encontram no território estadunidense em relação a leis, trabalho, língua, saúde, adaptação, informação etc. (ver também anexo do periódico abril 2003)
Os grupos que formam a comunidade de brasileiros em Boston, que constituem a comunidade social, apresentam objetivos semelhantes, com o ideal de servir aos brasileiros. Esses objetivos se resumem em discutir a questão do imigrante brasileiro e seu papel na sociedade, dar apoio às famílias brasileiras, que vivem na área da Grande Boston. Além de ser um veículo de informação para a comunidade, ajudar a comunidade na busca de soluções para os seus problemas e promover atividades culturais para a comunidade. Quanto à política desses grupos, consideram participar ativamente de promoções que valorizem e promovam o respeito pelas diferenças culturais. Apoiar o trabalho de entidades que representem e trabalhem com a comunidade brasileira. Participar e apoiar promoções que lutem pela organização, conscientização política e direitos humanos dos imigrantes. Promover a organização comunitária e o surgimento de lideranças comunitárias. Lutar contra qualquer forma de discriminação, preconceito, humilhação e desrespeito à comunidade, à cultura e à língua brasileira. Além disso, promover a união e o entrosamento da comunidade brasileira com a norte-americana e com os outros grupos linguísticos comunitários. (www.verdeamarelo.com.br)

Várias são as organizações que trabalham com os brasileiros na área da Grande Boston: Algumas delas foram criadas por brasileiros para trabalhar com e para brasileiros, como o Grupo da Mulher Brasileira, o Centro do Imigrante Brasileiro, a Associação Brasileira & Americana e a Brazilian Business Network. Outras, mais antigas, como o MAPS (Massachusetts Alliance of Portuguese Speakers), foram fundadas em função da população portuguesa e, nos últimos anos, viram-se obrigadas a redirecionar seus serviços, em virtude da crescente demanda apresentada pela coletividade brasileira. Um terceiro grupo é o institucional, prestador de serviços, como hospitais e escolas, que estão sendo obrigados cada vez mais a trabalhar com brasileiros.

Grupo da Mulher Brasileira
(...) É um movimento de base preocupado com a organização político comunitária da comunidade brasileira da área da Grande Boston (...) tem uma vasta lista de promoções, como palestras, conferencia, sessões mensais de filmes brasileiros, workshops sobre imigração e cidadania. (...) A idéia de celebrar o 7 de setembro em Boston nasceu dentro do Grupo, e o festival multicultural em celebração do Dia Internacional da Mulher é uma tradição que se repete há quatro anos. (...) monitora de perto ações e medidas que prejudiquem ou beneficiem a comunidade imigrante brasileira. (Souza, 1999)

Centro do Imigrante Brasileiro
O Centro do Imigrante Brasileiro é uma organização, baseada nesta comunidade, procurando melhorar as vidas dos brasileiros em Boston, através de treinamento, organização e desenvolvimento de suas capacidades para liderança.
“O objetivo do CIB é de organizar um movimento unido de brasileiros contra discriminação econômica, social e política”.
Enquanto o número de imigrantes brasileiros nesta região fica cada vez maior, os episódios de abuso também vão aumentando. Os brasileiros vêm a este país para trabalhar duro e criar um vida melhor para seus filhos e para si mesmos.
Porém, muitos não são conscientes dos seus direitos.
Estes incluem os direitos de educação para crianças, direitos no trabalho, e direitos como imigrante. Para quem não sabe seus direitos, discriminação e abuso representam grande perigo.
O Centro do Imigrante Brasileiro foi estabelecido para ser um lugar onde os brasileiros podem se reunir, procurar conselhos, e se organizar para conseguir seus direitos. (www.braziliancenter.org)

Associação Brasileira e Americana (ABA)
(...) objetiva oferecer assistência social, oportunidades de trabalho e educação, principalmente ais brasileiros e seus descendentes. (...) entra no campo da prevenção à saúde. (...) Prevenção ao fumo, ao álcool e ao suicídio são três tópicos prioritários. (...) lista o oferecimento de aulas de inglês, grupo de suporte da terceira idade, terapia em grupo nas terças-feiras à noite, grupos de adolescentes, nos meses de verão (julho e agosto) e um grupo de apoio aos pais (...). Hoje conhecida por BRAMAS - Brazilian American Association
“Organizar a comunidade Brasileira para se criar uma identidade na sociedade Americana”.( http://www.bramas.org/)

Brazilian Business Network
Objetiva promover a riqueza entre os brasileiros imigrantes através de estímulos ao potencial de crescimento e geração de emprego. (...) visa integrar o setor privado e o público do Brasil e dos Estados Unidos em parcerias estratégicas para aumentar o volume de negócios gerados. (...) ajuda os comerciantes brasileiros a navegarem os intricados caminhos da burocracia americana, oferece orientação sobre a obtenção de financiamentos e empréstimos e ajuda pequenos comerciantes a melhorarem a renda de suas lojas ou expandir seus negócios.

Hospital Santa Elizabeth
(...) tem cinco brasileiros em sua equipe – uma médica, uma farmacêutica, duas intérpretes e uma secretária – e, diariamente, atende cerca de 60 brasileiros (...). As consultas variam de simples vacinas, exames pré-natal, check-up, até aconselhamento emocional, entre outros.

Hospital de Somerville e Cambridge
Oferece aconselhamento e teste do vírus HIV e na área de serviço social para pessoas infectadas com o vírus ou que já tenham AIDS. (...) a clínica está preocupada em atender melhor a cultura, os medos e os problemas dessas pessoas para poder servi-las melhor. (...) São mais de 25 brasileiros trabalhando como intérpretes e enfermeiros, assistentes sociais, coordenadores de projetos e programas. (...) para deixar a pessoa confortável e evitar erros gravíssimos.

Associação dos Profissionais Brasileiros
(...) objetiva facilitar o ‘network’ entre os profissionais que atuem nas diversas áreas. As reuniões acontecem a cada dois ou três meses, geralmente em torno de assuntos que interessem a comunidade, como saúde, imigração, comércio etc.

Conselho de Cidadãos
(...) instrumento da política consular brasileira, criado com o objetivo de aperfeiçoar a prestação de assistência ao cidadão brasileiro vivendo no exterior. (...) objetiva promover maior interação e entre a comunidade e a autoridade consular com vistas à procura de soluções para os problemas enfrentados pelo cidadão brasileiro, respeitadas as leis nacionais e internacionais. (Souza, 1999)

É interessante ressaltar que muitas desses grupos possuem sites na Internet, com suas histórias e seus serviços prestados, fotos e depoimentos sobre a vida dos imigrantes e os eventos dos quais eles participam e que são desenvolvidos para eles (ver Anexo 4). Também têm o objetivo de divulgação e acesso pela maioria possível da comunidade brasileira, publicando reportagens que estimulam e identificam o indivíduo com a comunidade. A maioria dessas comunidades traz links de acesso às demais e traz seu próprio informativo com suas realizações e informações (ver Anexo reportagens).
Também o Consulado Geral do Brasil em Boston representa uma forte base institucional de apoio ao migrante. Oferece uma série de serviços relacionados a inserção do migrante na comunidade americana e o informa de seus direitos dentro da Legislação dos EUA.Um bom exemplo é a mensagem de boas vindas destinada aos brasileiros, que está disponível no site: (ver também em anexo a página de serviços deste)
Aqui você vai encontrar, igualmente, informações úteis. Pela Internet, a sua relação com o Consulado vai tornar-se mais ágil e, esperamos, mais freqüente. É importante que os brasileiros mantenham contato com o Consulado, o que lhes pode ser de muita utilidade no dia-a-dia ou em situação de emergência ou dificuldade.
Ao Governo brasileiro cabe prestar, aos brasileiros que se encontram no exterior, assistência e proteção consulares, serviços que fazem da cidadania brasileira, uma condição sem fronteiras.
Boston é o centro em torno do qual vive uma importante e ativa comunidade brasileira. Com seu trabalho e seus estudos, essa comunidade honra o Brasil e o fortalece no exterior. É uma honra para todos nós, do Serviço Exterior Brasileiro, poder colaborar para que a comunidade brasileira na Nova Inglaterra continue a progredir e a contribuir para a grandeza do seu país distante. (http://www.consulatebrazil.org)
Através desses grupos a comunidade representa forte fonte de identidade, pois reforçam as tradições e promovem interação entre os brasileiros imigrantes. Dentro dela, as pessoas reconstroem seu mundo e, com freqüentes adaptações, conseguem criar, e se enquadrar numa vida peculiar: a transnacional. “(...) o aparecimento e a atuação destes grupos comunitários, alem de legitimar a presença do imigrante em solo estrangeiro, ajudam na formação e propagação de sua identidade étnica e cultural e criam condições para uma organização comunitária política e civil que mira e aprimora os moldes brasileiros”. (Souza, 1999)
Nos Estados Unidos, é natural que um brasileiro sinta necessidade de expressar-se em sua língua de origem, isso lhe traz conforto e satisfação. Mas ao aprender a língua do novo país, novas expressões são incorporadas pelo indivíduo, e ele passa a atribuir novos valores à sua maneira de falar. A partir de então, ele conhece novos símbolos e os utiliza de acordo com sua nova condição. Um feriado nacional norte-americano pode ter ou não significado para um brasileiro, dependendo do grau de absorção cultural deste. Ao mesmo tempo, em um dia comum nos Estados Unidos, um brasileiro pode aludir à sua pátria, celebrando a data comemorativa referente a esse dia. Nesses momentos, o individuo esquece de si mesmo e o sentimento de pertencer ao grupo ocupa a primeira posição. (Gibernau, 1999)
Ao criar dentro da comunidade de destino, maneiras de reafirmação de sua origem, os imigrantes brasileiros, de uma forma parcial, apresentam a transnacionalidade. As redes de sociabilidade recriam identidades brasileiras num contexto de culturas em contato. Elas constroem formas de convivência entre brasileiros e norte-americanos, apesar de não significarem, nessa pesquisa, uma identidade híbrida. Pode-se sugerir que o estabelecimento dessas redes, através de Igrejas, de pequenos comércios, de agências de remessa de dinheiro, de bares, assim como as fitas de vídeo que chegam toda semana com noticias, e os telefonemas, cartas e e-mails enviados ao Brasil, revela a constituição de uma comunidade brasileira nos EUA. “Essas redes de sociabilidade apontam para a recriação de um ‘lugar brasileiro no EUA’ possibilitando aos migrantes permanecerem nos EUA e manterem suas ligações com o Brasil”.(Assis,1995)
Para os migrantes, a vida no país de destino acaba por resultar em intensificação dos laços de parentesco, não apenas pelo potencial de mobilização dessas relações para enfrentar as múltiplas carências de um grupo egresso do mundo brasileiro, como também pela segurança emocional que a convivência familiar proporciona perante o mundo estadunidense desejado, mas que segrega, isola e hostiliza aqueles que não são portadores dos saberes, condutas e habilidades por eles requisitados.(Costa, 2001)
Os imigrantes brasileiros em Boston vivenciam diariamente a concomitância de varias culturas, (principalmente a brasileira e a norte-americana) dentro de um mesmo lar. Têm acesso a uma oferta de produtos de ambas procedências, que podem recriar uma atmosfera brasileira, ou inseri-los na realidade estadunidense. E tem poder de compra suficiente para adquirirem os melhores produtos. A vida familiar “garante, por um lado, como unidade de rendimentos, a solução conjunta das questões de sobrevivência. Enquanto, por outro lado, como unidade de consumo, torna-se o centro para definição coletiva dos projetos de vida e de estratégias, visando assegurar determinado nível de consumo de bens”. (Costa, 2001).
Tendo-se como objeto de estudo a possível identidade transnacional existente nessa comunidade brasileira que se formou no norte dos EUA, buscou-se através da análise dos grupos que a constituem, o significado das interações entre culturas e identidades para os imigrantes. Essas pessoas se estabeleceram dentro dos padrões americanos, mas em lares brasileiros, vivenciando duas culturas concomitantemente, vivenciando experiências, assimilações e ressignificações sociais, econômicas, políticas e especialmente culturais. Um modo de ver e viver a transnacionalidade, porque o contato com outra cultura transforma valores, principalmente familiares e nacionalistas. Assim a comunidade constrói formas de convivência entre brasileiros e norte-americanos, através da extensa gama de serviços por ela (e para ela) prestados, esses imigrantes podem vivenciar com mais facilidade um “lugar brasileiro nos EUA”, e assim têm maior adaptabilidade, especialmente social, a esse lugar de destino.
O fenômeno da aculturação envolve mudanças na cultura de um grupo social sob a influência de outro com que entra em contato. No caso da comunidade brasileira, a aculturação se refere ao processo ao qual as famílias dessa comunidade são acometidas quando vão morar nos Estados Unidos. Significando que o “Universo Cultural” dos brasileiros nos EUA foi alterado devido ao novo contexto social em que eles se encontram.
As adaptações e alterações no universo estadunidense são iniciativa dos diversos grupos e instituições da comunidade brasileira em Boston. As promoções e realizações desses grupos sustentam um universo de “implantação” da cultura e da identidade brasileira no território norte-americano.
A identidade original dos brasileiros é modificada pela assimilação de novos valores e costumes que os leva (apesar de continuarem brasileiros), a serem brasileiros de uma forma diferente – decorrente dos novos valores assimilados. Eles são brasileiros em território diferente, convivendo com não-brasileiros, assimilando novos comportamentos e costumes, mas apesar disso, conseguem cultivar a cultura e os costumes do Brasil em território norte-americano, através de imposições e improvisações realizadas nessa realidade em que estão inseridos.
Através dos grupos sociais, comerciais e religiosos pertencentes a essa comunidade, o imigrante pode “celebrar” sua brasilidade e manter seus laços culturais, ainda que há milhares de quilômetros de seu país. Por isso, pela força da comunidade brasileira, e o modo como ela existe e atua em Boston, não se alcança aqui nesta pesquisa a demonstração de uma nova identidade, híbrida (resultante da hibridação das culturas brasileira e norte-americana), mas sim a aculturação dos imigrantes brasileiros em território estadunidense.
[1] Margolis (1993) explica esse fato devido às gerações de migrantes. Segundo essa autora, os brasileiros estão em sua segunda geração de migrantes, pois o fluxo migratório significativo Brasil/ EUA somente se intensificou a partir da década de 1980. Em relação às outras comunidades de imigrantes supramencionadas, já se integram aos Estado Unidos desde o início do século XX.
[2] A classificação racial usada nos EUA é raças branca, negra, asiática, hispânica e índio norte-amricano. (Souza, 1999) Notas são com espaço simples.


[3] Para Teresa Sales (1999, p.66) as “empresas étnicas” têm chamado a atenção pois, as comunidades migrantes, através da revitalização de bairros decadentes e despovoados, por efeito das atividades dessas empresas, vêm abrindo e operando pequenos negócios, e têm respondido, ao mesmo tempo, por um modelo de ajustamento e mobilidade socioeconômica dos novos migrantes nos Estados Unidos.

[4]Winnick, 1990 apud Sales, 1999

[5] Teresa Sales (1999, p.68) faz referência ao perfil sócio-ocupacional dos imigrantes por ela entrevistados, e que apresentam um bom nível de escolaridade.

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