MonoFlávia - Conclusão

Conclusão

A idéia original desta pesquisa seria a representação de uma identidade híbrida, transnacional construída pelos imigrantes valadarenses na cidade de Boston. A demonstração de como o choque e a interação das culturas americana e brasileira em contato implicariam a construção de uma cultura híbrida e a conseqüente representação desta, na identidade dos imigrantes brasileiros. A chamada identidade transnacional em questão seria a prova das construções e reconstruções sociais, culturais e ideais dos imigrantes a partir de sua identidade de origem, a brasileira, em contato e assimilação com a identidade de destino, a norte-americana.
Através desta pesquisa o que se pôde observar foram os processos de adaptação da comunidade brasileira em seu destino, ou seja, como a identidade de origem (brasileira), sobrevive no país de destino (Estados Unidos). Os modos que essa comunidade encontra de reforçar os valores e tradições brasileiras, e o principal motivo desse fenômeno de fortalecimento concretizam-se através das chamadas redes sociais.
Pela análise do fluxo migratório Brasil-EUA, enfatizada nas chamadas redes sociais, entende-se aqui que os laços de família e amizade entre os imigrantes, principalmente os provenientes do município de Governador Valadares foram que tornaram possível a existência dessas redes; e conseqüentemente, o crescimento, fortalecimento e porque não dizer, o sucesso da comunidade de imigrantes em Boston, que é composta em sua maioria por pessoas conectadas às redes sociais, entre parentes, amigos e conterrâneos.
Através dessas redes sociais, o trabalho pretendia explicar como resultado da formação das famílias dos imigrantes, uma identidade transnacional, expressada particularmente nas transformações culturais, de valores e papéis dentro da família imigrante. Infelizmente essa meta foi frustrada por haver uma lacuna nesse campo de pesquisa. Não foram encontradas pesquisas sobre esse assunto, e os autores especializados nas migrações internacionais de brasileiros consultados, até mesmo os que enfatizam a comunidade valadarense em Boston, como Teresa Sales e José Vitor Bicalho, embasam suas análises na dificuldade de adaptação e sobrevivência e nas conseqüentes transformações e alternativas que os brasileiros criam para se estabelecerem no destino.
Além disso, seria necessário para realização do propósito supracitado, que a autora dessa Monografia fosse aos EUA, coletar informações em pesquisa de campo, o que não foi possível. E sem esta pesquisa (de campo) ficou impossível a análise do que se pretendia. Noções e conceitos teóricos teriam de ser retomados para dar embasamento ao estudo que seria realizado junto aos migrantes. Esse último seria feito através de observações participantes, visando o esboço do perfil e do universo de vivência dos migrantes. Também teriam que ser feitas entrevistas e questionários, observação e registro de situações cotidianas (observação da vivência comunitária das associações da comunidade brasileira em Boston como “Centro do imigrante brasileiro”, “Conselho dos cidadãos”, entre outras). Entrevistas e coletas de depoimentos, junto aos migrantes, a especialistas (pesquisadores, psicólogos, entre outros). Desse modo o projeto buscaria a construção da identidade desses brasileiros – que aqui nasceram, mas que possuem influências distintas daqueles que por aqui permaneceram ao longo de suas vidas.
Foi baseado em vários estudos, especializados sobre o tema escolhido, que pude perceber as mudanças às quais o imigrante brasileiro passa ao vivenciar a experiência de morar nos EUA. Pelo menos a maioria estudada, passa a supervalorizar o poder de consumo. Nos EUA, o imigrante experimenta uma enorme oferta de bens a seu dispor, acompanha o desenvolvimento tecnológico dos produtos e tem o poder de compra. E esse é o grande pesar desses brasileiros, na hora de pensar em voltar ao Brasil.
Outra mudança que atinge muitos dos brasileiros residentes no exterior é a aceitação da queda do status social. Pelo fato de ver seu poder de compra aumentado, mesmo que em decorrência de se estar prestando a um subemprego, muda (ainda que parcialmente ou momentaneamente; no caso, enquanto estiverem nos Estados Unidos) a sua concepção de classe social. Ele vivencia a classe mais baixa e, ao mesmo tempo, alcança “privilégios” e patrimônio que não teria acesso no Brasil.
A terceira mudança e não menos interligada às outras diz respeito à condição clandestina do imigrante. A boa parte dos brasileiros que ingressam nos EUA com o objetivo de lá permanecerem temporariamente para juntar algum dinheiro ou adquirir alguns bens, o faz ilegalmente. Quer dizer, o ingresso nos Estados Unidos com o visto de turista, não pressupõe permissão para trabalhar. E é justamente essa falta de documentos legais que exclui, nos EUA, o imigrante brasileiro do mercado de trabalho que ele pertencia no Brasil (principalmente no caso dos graduados) e o expõe ao mercado de trabalho secundário, ou os chamados subempregos.
Por esse motivo a vida de muitos imigrantes se torna difícil, a falta de documentos, a impossibilidade de “ir e vir” a Brasil, a saudade da família, a dificuldade de adaptação a um país, língua e povo estrangeiros. Sendo assim, a comunidade brasileira exerce um papel fundamental para esse imigrante. Ela representa um referencial de identidade, apoio no sentido social, cultural e até mesmo econômico, através dos serviços e atividades oferecidos pelos grupos que constituem essa comunidade.
Desse modo, entende-se que a comunidade de origem do brasileiro que chega nos EUA, é constantemente reconstruída, ao passar por processos de assimilações, interações, choques e até comparações. Essa identidade é a denominada transnacional, “o pêndulo”, que nunca pára está em constante movimento.
É dentro desse contexto de adaptação e formação da comunidade brasileira no exterior que se pretendia comprovar nessa análise a formação da identidade transnacional, resultado da hibridação da identidade brasileira com a identidade norte-americana. A identidade transnacional é aqui apresentada através do modo de viver dos imigrantes brasileiros, da constituição de famílias brasileiras no exterior dentro de dois padrões culturais distintos, o brasileiro e o norte-americano, assim como a formação da comunidade de brasileiros residentes numa mesma região do norte dos EUA (no caso a da Grande Boston), e as relações sociais e culturais estabelecidas dentro desse sistema de dimensão internacional e difusão cultural.
Os processos de mudança compreendidos no conceito de "globalização" estão afetando o aspecto da identidade cultural moderna que é formado através do pertencimento a uma cultura “nacional”. Desde os anos 70, tanto o alcance quanto o ritmo da integração global aumentaram enormemente, acelerando os fluxos e os laços entre as nações. As identidades nacionais, como vimos, representam vínculos lugares, eventos, símbolos, histórias particulares. Elas representam o que algumas vezes é chamado de uma forma “particularista” de vínculo ou pertencimento.
A historia da migração é feita desses relatos de vidas, línguas e culturas, desse sentimento de pertencimento e reconhecimento (vínculo). Portanto, os novos migrantes são uma expressão contundente de rearticulação entre o global e o local, criando um campo social entre os dois lugares – o transnacional. Os imigrantes passam a ser chamados de transmigrantes quando desenvolvem e mantêm múltiplas relações-familiares, econômicas, sociais, organizacionais, religiosas e políticas que ampliam as fronteiras colocando em inter-relação o global e o local.
As relações que os emigrantes estabelecem entre os EUA e Governador Valadares envolvendo desde familiares, à agências de turismo e lojas de construção civil, bem como as várias idas e vindas, sugerem que o enfoque transnacional pode ser pertinente para explicar este fenômeno evidenciando o caráter transnacional do mesmo.
A comunidade, como uma família ampliada representa maior vigor para adaptação às exigências e aos estímulos da vida no exterior. Ela permite maior resistência desde as privações que vão da ordem econômica à emocional, à aceitação do cotidiano da condição clandestina desses imigrantes. Esse fato se deve à significação da comunidade como grupo de sociabilidade e solidariedade e suas formas de cooperação para com a vida do migrante, em geral.
Dentro da compreensão das Relações Internacionais, a comunicação entre agentes habilita os indivíduos ao reconhecimento uns nos outros. A capacidade de aprendizado para dar sentido ao mundo social se baseia nos entendimentos coletivos que dão às pessoas razões pelas quais as coisas são como são e indicações de como elas devem usar suas habilidades materiais e seu poder. Os indivíduos afetam reflexivamente e com freqüência o conhecimento humano formulado, nesta Monografia, as identidades, interesses e comportamentos dos atores, no caso os imigrantes, são socialmente construídos por significados, interpretações e pressupostos coletivos sobre o mundo.
A transnacionalidade significa a interação entre atores que, ao ultrapassarem o campo do nacional, tornam-se parte constitutiva dos fluxos. Assumem novos padrões de comportamento que os encaixam internacionalmente. As sociedades modernas são multiculturais e assim permitem que símbolos culturais interajam no interior do sistema internacional, o que resulta na circulação de identidades, pois as pessoas carregam com elas seus valores originais, e ao se relacionarem com outros atores, e dão sentido ao mundo social.
A comunidade assume o papel de tornar o migrante apto a enfrentar os desafios do local de destino e as condições de seu ingresso nesse local. Pois, na vivencia do tipo comunitário, a cooperação, a ajuda mútua e as normas internas de convívio e controle social, estabelecem as marcas de pertencimento assentada nas relações sociais e pessoais. Além do pertencimento o imigrante encontra no convívio comunitário outros sentimentos como o aconchego, o reconhecimento e o compartilhamento de sensações como o saudosismo, a euforia e o companheirismo. As pessoas carregam valores relativos a suas comunidades de origem, e muitos desses valores podem ser encontrados, expressos e reafirmados através da interação com outros compatriotas pertencentes à comunidade construída no destino.
As comunidades (epistêmicas) têm um conjunto compartilhado de crenças e são compostas por indivíduos que compartilham idéias, valores e crenças comuns, buscando a construção da realidade internacional pelo conhecimento intersubjetivo. Isso se dá através de premissas teóricas, interpretações e significados coletivos que ajudam a construir a realidade social das Relações Internacionais, refletindo a qualidade de suas crenças.
É através da comunidade que se forma a rede na qual compartilham-se conhecimentos e valores entre os atores (no caso o indivíduo brasileiro e o norte-americano). Dá-se a difusão e a internacionalização de novas normas constitutivas que criam novas identidades e interesses e até mesmo novos tipos de organização social.
As redes sociais se ampliam através da inclusão de parceiros da comunidade e do trabalho, amigos e vizinhos, indicando a extensão dos laços estabelecidos nas atividades produtivas na comunidade (brasileira em Boston) e denotando identidades estabelecidas por interesses comuns. Unidos em redes de cooperação de solidariedade, que perpassem as relações de parentesco e fundem várias unidades familiares em uma grande comunidade, esses migrantes extraem de sua bagagem cultural os laços significativos que lhes asseguram, em novo arranjo, formar o “nós” fortalecido sobre o qual assentam as bases da nova vida.
As comunidades tidas como “redes de transmissão de informação” tornam possível a circulação de identidades, perpassadas pela multiplicidade cultural do mundo globalizado, conseqüentemente, dentro delas também acontece o choque e a interação de culturas distintas, permitindo assim a hibridação dessas, ou a aculturação da comunidade estabelecida no destino, como no caso aqui estudado.

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